24.12.04

Presépio

José saiu hoje do trabalho mais cedo para passar no Colombo, antes da consoada. A Maria há muito tempo que gosta daquele lindo fio de ouro branco com um crucifixo e José quer oferecer-lho; Não é por acaso que andou um ano a juntar dinheiro, e até abdicou das noites de cartada com os amigos à sexta-feira. Maria não lhe comprou nada. Cada vez que passa em frente às lojas, sob o brilho das iluminações da cidade, sente angústia. A Maria e o José não são pobres, nem ricos, mas têm um filho toxicodependente, cujas tentativas de recuperação lhes leva ordenados inteiros. José só quer agradar a Maria, mesmo que isso signifique aturar os enfeites nas ruas e os encontrões nas lojas. Logo ele que nem sequer suporta o histerismo dos colegas mal entra o mês de Dezembro. O filho deles há mais de seis meses que não vem a casa, e no último dia 24 acabou por meter meia dúzia de bolos ao bolso, pedir dinheiro e sair antes da meia noite. O embrulho está lindo, acha José que ainda compra uma rifa a uma instituição qualquer, de que nem se recorda de ter ouvido falar, antes de sair do centro comercial. Maria já chegou a casa e só espera que o marido não se tenha lembrado de gastar dinheiro em presentes. Este ano, nem sequer fizeram árvore, porque ela não quis. José, por ele, fazia tudo. José sempre fez tudo, desde o início. Aceitou Maria com um filho de pai desaparecido, amou-o e protegeu-o até que outro herói, uma heroína aliás, o resgatou. A campainha toca e Maria sente-se desapontada por ser José. Ele não se importa e resolve surpreendê-la com a caixinha de veludo vermelho e laço dourado. Maria deixa rolar duas lágrimas, “eu só queria era o nosso menino Jesus aqui”. “Tu queria-lo sempre aqui Maria. Sempre! E eu também. Olha, vamos esquecer que hoje é Natal?! Está bem?! Assim não sofremos tanto. Ele há-de vir um dia, nós vamos encontrá-lo. Nesse dia comemoramos o Natal. Está bem?”. Maria assentiu com a cabeça e guardou a caixinha vermelha para esse dia. Jantaram e desligaram os telemóveis para não ver as mensagens. Na manhã seguinte, muito cedo, tomaram o pequeno almoço em Belém, e Maria comprou os pastéis de que ele tanto gostava para comerem na viagem. Eles iam à procura do filho.

1 Comments:

Blogger Seila said...

é! é mesmo assim, mais do que aquilo de Natal comprado, estes são os muitos natais que por aí há! Um grande abraço e que a Vida te seja Alegria e Serenidade mesmo na dor de natais assim!

7:14 da tarde  

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