2.12.04

Cinemaníaca

Ainda a propósito do post anterior, sobre o filme da Bridget Jones, estive para aqui a pensar que uma das razões porque amo o cinema é precisamente a sua capacidade de subverter o tempo, projectando histórias arrancadas da ordem temporal das coisas, numa divertida “sacanice” com a passagem das horas que marca a nossa existência. Está lá tudo, num filme. O princípio, o meio e o fim. A palavra ‘fim’ representa a supremacia da sétima arte, com ela acreditamos que tudo acaba, ou melhor, tudo tem uma resolução, mesmo que não seja a melhor, mesmo que permaneça a dúvida... No cinema até a dúvida é um fim. A dádiva do cinema é tanto maior quanto o engenho que deposita na construção de personagens e enredos, que perduram no tempo apesar de todos terem tido um final. Assim de rajada, lembro-me de pelo menos uma dúzia de filmes que perseguem a eternidade – “O Padrinho”, por exemplo, é um manancial de “falas” a que quase todos os homens gostam de recorrer uma vez ou outra, a história do casal de “Eyes wide shut” de Kubrik serve para todas as ocasiões... E podia continuar horas a fio neste exercício. Apesar de tudo, acredito que o cinema é uma arte contrária à vida, alimenta-se dela, mas prega-lhe sempre uma valente rasteira, esfregando no seu rosto imprevisível ‘o’ guião com que nos amarra ao ecrã. É que nós não podemos visionar a nossa vida, pois não? Nem podemos repetir as cenas até a coisa ficar perfeita, não é? E, no entanto, um e outro, cinema e vida, são de uma beleza esmagadora, precisamente por aquilo que os divide – o tempo. Um real, o nosso, o outro imaginário e construído. Numa clara aproximação existem filmes como o recente “Lost in Translation”. Aí abaixo, num comentário ao post anterior, foi apontado como tendo o final perfeito. Eu percebo porquê. Não sendo uma obra maior da minha lista, o seu final é uma parábola do permanente advento que é a vida. Termina com um segredo ao ouvido... e um sorriso!

4 Comments:

Blogger Roxanne said...

minha querida, por não vermos o "filme todo" é que vem aquela conhecida ansiedade...se ao menos soubessemos qula era o fim, não é? Eu por agora vou vivendo "frame a frame"...Beijinho

4:52 da tarde  
Blogger Lolita said...

Filme perfeito que resume a minha vida... só o Antes do Anoitecer!

5:48 da tarde  
Blogger objectiva3 said...

Mais um post divino...E sobre cinema...Uma paixão comum mas vivida per si. ;))
Os rostos, os planos, as cores, a banda sonora, a movimentação das imagens, enfim a magia... de cada história!
Uma das melhores: O filme "Nuovo Cinema Paradiso" (original) ou em versão portuguesa : "Cinema Paraíso".
Kiss.

9:08 da tarde  
Blogger clark59 said...

A ideia do seu post, se bem a entendi, não era 'vou descrever o filme da minha vida'. Mas, por mim, cá vai: o filme da minha vida (começada em 1959, meados da Primavera) é 'Body Heat', de Lawrence Kasdam, com a Kathleen Turner e o William Hurt (e o Ted Danson, já agora). É a primeira obra do cineasta enquanto realizador, e eu aprendi ao longo da vida a ser fã de primeiras obras (o melhor livro de Brecht, por exemplo, é 'Baal', o seu primeiro). Só os nabos evoluem. Quem sabe o que quer faz logo bem, à primeira.

1:56 da manhã  

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