20.11.04

Um momento político ou o beco das gerações

Talvez tenha sido a propósito do estado da nação, da democracia, das eleições nos EUA, não sei bem. Da globalização também, se calhar. Seja pelo que for, ocorreu-me que muitos dos quarentões e cinquentões com quem travei conhecimento até hoje andaram na adolescência e na juventude adulta a lutar, ou muito simplesmente a desejar, por um mundo de igualdade de direitos e oportunidades. Cabem nesse mundo a universidade, a cultura, o lazer e o entretenimento. Nesse mundo visto por uma lupa urbana, as aldeias e as serras lá longe devem também aproximar-se da cidade, por vias e transportes, e pela construção de equipamentos que as alimentem e dignifiquem. A ideia, já velhinha, continua a ser uma boa ideia, e estes ideólogos são todos boas almas. Noto é que os ideais de juventude só são bons quando não passam disso mesmo - ideais. Hoje, em plena idade global, em que as capelinhas são cada vez mais catedrais, os sonhos dessa malta madura, que um dia iluminou a escuridão dos clubes privados, ameaçam tornar-se pesadelos. Recordam com saudade e melancolia a elite que constituiam, na época em que a elite não era vip, era bem intencionada e, supostamente, ansiava expandir-se. Eu bebo-lhes as palavras e a sabedoria, porque é para mim um prazer aprender com eles. Gosto de escutar as estórias de liceu, dos cromos de colecção com quem partilharam a secretária e que hoje se sentam na Assembleia e noutras sedes de poder, dos livros que leram aos quinze e que eu com 32 anos ainda nem conheço... Gosto de os ouvir contar onde estavam no dia 25 de Abril de 1974, passo-me quando me falam de coisas que eu a seguir tenho de ir pesquisar na net, e rio-me dos disparates que faziam e que envergonham qualquer diabrura que a minha geração inocente, e até um bocadinho sem sal, cometeu. Em contrapartida, sinto-me também sempre um bocadinho mais à frente deles quando reparo, com alguma superioridade (confesso), que afinal eles pararam no tempo. Desdenham tantas vezes a massificação das artes e dos bens de consumo, e o acesso ilimitado à escrita e a outras formas de manifestar sentimentos, que até irrita. Então não era isto que queriam? É claro que não, mas estas vitórias são como os menus dos restaurantes, há sempre qualquer coisa que não gostamos (o café, a sobremesa do dia, etc), mas levamos com o "bolo" todo, porque já está pago. A verdade, verdadinha, é que eu temo que o desdém que por vezes os meus amigos cotas imprimem à sua visão da presente realidade (e não estou a falar da política, que essa é um nó cego) seja o mesmo que eu possa deixar passar para os adolescentes e miúdos de vinte anos que conheço. Também a mim me desgostam os passeios em família nos centros comerciais, a moda de ser "famoso/conhecido" à força, a chegada ao pódio de mentes que noutros tempos não passariam sequer da linha de partida. E então?! Metas há muitas... Aí está a beleza disto tudo. A escolha, que hoje é uma realidade, será sempre uma arma, e cada um a usa como quer. Neste beco onde viemos todos desembocar, só não podemos é virar objectores de consciência. Pronto. Encerro aqui este momento político.

5 Comments:

Blogger objectiva3 said...

Mais uma vez, uma escrita irrepreensível que nos faz meditar...
Há "cotas" e "cotas".E há alguns bastante avançados...
Tudo depende do percurso de vida de cada um!
Bj.;))

12:25 da manhã  
Blogger antonio said...

Obrigado pelas visitas e pelo apoio dado no momento complicado que atravesso.

Um abração do
Zecatelhado

12:35 da tarde  
Blogger Marta said...

Que me seja permitida apenas uma perguntinha:
"Como será o meu amigo daqui a 20 anos?"
Será um "cota" diferente dos outros?
Um "cota" especial de corrida?

Vá pensando nisso!

10:40 da tarde  
Blogger Toix said...

Na mouche. Sabes que uma das coisas que constatei com a idade é que, aquilo que se deseja, mais tarde ou mais cedo acontece, só que "Deus" é manhoso e faz as coisas à sua maneira. Eu enfio inteirinha a carapuça, mas olha, com o frio que tem feito estas manhãs até dá jeito. Obrigadinho.

7:50 da manhã  
Blogger clark59 said...

Se bem me lembro, a menina tem 32 anos, não é? Um dia destes, este que não poderia ser seu pai, mas seu tio, responde às suas ansiedades.
Vá ouvindo. Há poucas coisas melhores para aprender. Mas não se assuste nem se angustie com as perplexidades e 'give it up' dos cotas. Nem toda a idade é saudade, nem todo o tempo é perda de tempo.

1:27 da manhã  

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