2.3.05

Ela não sabia mas estava a ser observada - Cap. II

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A chegada

Ao fim de duas horas à espera da bagagem vazia, Júlia, com enfado, arrastou-se até à saída. O aeroporto da Portela continuava com o mesmo ar provisório e provinciano de sempre. Quantas vezes já esteve em obras? Pensou. A única vantagem é que estava a poucos minutos do centro da cidade. Não sabia ainda para onde ia, mas o centro de qualquer coisa é sempre a melhor opção.

"A menina não é de cá? Está com sorte, o tempo está bom, pode ir até à praia da Ericeira ou até à Caparica...". Não podia apanhar sol, disse-lhe, com uma voz mais de vítima do que de mau humor. "Ó(u) então vá até à Expo, aquilo ficou muito jeitoso, muito arejado. Ainda me lembro de como aquilo era. Lixo, era o que era, cheio de contentores". O taxista, velhote e simpático, não se calava e Júlia tinha o péssimo hábito de não conseguir ser indelicada com quem não tinha a culpa de nada. Ainda lhe conseguiu dizer, antes de pagar os 11 euros, que tinha gostado muito da Expo, mas as filas eram muito grandes. Inevitável. Pouco mais de duas horas na capital depois e já estava a dizer disparates banais, quando a sua especialidade eram os disparates originais... Noutra altura teria respondido que o que mais tinha apreciado na Expo fôra ter conhecido o Filipe e exibido a t-shirt molhada num daqueles repuxos coloridos...

O táxi deixou-a ao cimo da Avenida da Liberdade, junto ao edifício do DN, onde o Filipe trabalhava como fotógrafo. Tinha sido num dia como aqueles, em que Júlia acordara do avesso e com um desconforto no corpo que lhe inquietava as atitudes, que Filipe tinha caído de uma grua enquanto fotografava um novo empreendimeento imobiliário no Chiado. Chegara morto ao Hospital. Quando Francisco, o pai dele, chegou às Urgências já Júlia tinha decidido nunca mais voltar a Lisboa. A seguir ao funeral, tinha ido direita à revista onde estagiava e feito aquilo que Filipe sempre a aconselhara a fazer - bater com a porta. Nesse dia tinha batido também com a porta a uma vida com Francisco e com tudo o que a relacionava com um ano confuso e ambíguo. Sete anos depois, talvez a porta tivesse ficado apenas encostada.

3 Comments:

Blogger Lolita said...

A júlia andava com o pai e com o filho?*??????

10:13 da manhã  
Blogger O asdrúbal said...

Qual porta? O gajo ressuscitou? He he!
Estou ávido de mais, please...

4:29 da tarde  
Blogger Marion said...

desconforto no corpo que lhe inquietava as atitudes .... gosto desta descrição ... manda mais ...

5:39 da tarde  

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