26.5.05

À espera estou eu agora

Vai fazer três anos em Outubro, fui ressacar das dores que inflingi ao meu corpo, à conta de uns parasitas que se alojaram no meu tecido profissional, para Barcelona.

Nessa semana apaixonei-me definitivamente pela ideia de abandonar Portugal, mais até do que pela ideia de amar Espanha (isso veio depois).

Lá, andei até à exaustão, procurando em cada Avinguda, Passeig e Carrer (a lingua catalã pode ser uma experiência assutadora!) a antítese das nossas avenidas, becos e travessas. Lisboa já era e eu queria saber o que Barcelona poderia vir a ser.

Foi boa para mim. Tão boa que hoje me lembrei daquela mesa à janela do "Els Quatre Gats", o mítico café restaurante de ambiente boémio, aberto em 1897, que Picasso frequentava e onde fez a sua primeira exposição em 1899.

Naquele dia choveu e eu andava com a minha habitual frescura de roupas: manga cava, saia e sabrinas compradas na hora com a desculpa que ia andar muito. Pelo adiantado da humidade no corpo, depois de sozinha ter atravessado a cidade de uma ponta à outra (abusei particularmente do esqueleto nessa jornada), entrei no "4 Gats". Sem guias nem mapas, descobri este café pelo boca a boca que habitualmente norteia as minhas viagens; não gosto de roteiros pré-definidos, nem de andar feita tonta de papel na mão, o que considero uma perda de tempo. O meu sentido de orientação é péssimo e já nem faço nada para o melhorar, quando muito deixo-me conduzir...

O ambiente de final de tarde no "4 Gats" era convidativo, turistas e locais embrenhados em tostas cheias de tomate, conversas animadas, empregados simpáticos, decoração eclética à medida das memórias dos seus frequentadores, temperatura amena. Para destoar das canhas, pedi um chá e uma tosta gigantesca que me entreteu durante uma boa meia hora. Minutos antes tinha ligado ao meu marido, coagido a dar formação a uns catalães mais preocupados com os resultados desportivos do Barcelona que outra coisa, a dizer-lhe para ir ter comigo. Onde? Como é que eu aí vou ter?

Olha agora... Sabia lá eu. Não sabes onde fica? Bolas já é a terceira vez que cá vens e não sabes onde fica o "4 Gats"? Perguntei com distinta lata, quando sabia perfeitamente que o desgraçado estava com a cabeça cheia de bocas ao Figo e à sua predilecção por camisas brancas, a cor do inimigo madrileno, e que as suas idas a Barcelona se tinham resumido a trabalho.

Olha, desenrasca-te. Ele é inteligente e sabe orientar-se, pensei. Pensei mal. O homem naquele dia só queria era ir para o hotel, não perbera nada das indicações que eu lhe dera (!) e mais do que nunca era o representante máximo daquele péssimo defeito masculino de nunca querer perguntar a direcção do que quer que seja a um estranho.

Ao fim de uma hora e meia a olhar para o relógio já não via o "Els Quatre Gats" à frente. Os empregados olhavam-me como se eu tivesse sido abandonada em pleno altar, e depois de dois chás, uma tosta e uma tortilha (!), estava embuchada e arriscava a parecer-me com uma glutona que come para esquecer as agruras amorosas.

Agora, à distância, percebo o quão tonta fui. Em vez de me ter aconchegado naquele canto com a espera que o meu marido me proporcionou, achei por perdido o tempo que, na ocasião, achava mais bem empregue a conhecer cada centímetro de Barcelona como se ela estivesse à beira de ser destruída pela bomba atómica. Naquela viagem eu só queria chegar às estrelas como o Gaudí.

Quando o tipo me apareceu à frente, encharcado até aos ossos, com a gravata descomposta e um mau humor desgraçado, eu paguei-lhe na mesma moeda, mas com gorjeta: Ai estás assim? Azar. Irritada estou eu. Vou-me já embora. De mão na anca, com vontade de pôr as sabrinas às costas e o bucho cheio de mais um pão com tomate que me tinham trazido para entreter os nervos, lá fui com ele atrás, à procura do caminho de volta para a cama de casal na Placa de Espania.

Hoje, recuperada uma terça parte da minha serenidade, lembrei-me do "Els Quatre Gats". Dava três centímetros de comprimento de cabelo para ali estar sossegadinha à espera dele ou de outro (pura provocação); desta vez, com choruda gorjeta para os empregados e um sorriso para o gajo.

E vejam lá que o Picasso até se pareceu com o Toulouse Lautrec... Só para mim.

Nota: Não se fiem muito... Mas hoje sei que o "Els Quatre Gats" fica na Carrer Montsió, 3, no Bairro Gótico, perto da Catedral... Pelo sim, pelo não, batam nesta porta e já agora nesta também, que sempre se aprende qualquer coisa.

2 Comments:

Anonymous e.u. said...

Há de tudo no mundo dos 3 www s!!! Já fiquei com vontade de conhecer tb!

11:43 da tarde  
Blogger clark59 said...

Els occellets cantant

4:02 da manhã  

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