27.4.05

Química tântrica

Uma semi-loira, outra semi-morena, vi-me de súbito a meio de uma conversa sobre o eterno dilema "mulher fácil, mulher difícil", entre duas amigas muito próximas.

Uma defende que quando há química entre um homem e uma mulher, esta se deve manter na reserva, exalando umas frases subtis, propondo o que ainda é invisível mas já se sente. Outra acha um absoluto disparate a mulher andar a armar-se, contrariando o que lhe apetece fazer logo ali, no balcão do cinema, no carro, nas escadas.

A primeira, diz a segunda, é romântica. A segunda, diz a primeira, devia ter mais calma.

Eu ouvia-as à primeira, à segunda levei também com uma roda de romântica, à terceira falei. Com a devida distância que consigo reservar em todos os assuntos, que é nenhuma, disse-lhes que ambas acabavam por ter razão. E que outra coisa dizer?

A questão é que os homens (que é no fundo em quem se pensa, quando se tem este tipo de conversas) também não se entendem sobre o assunto. Sobretudo os que estão à beira dos 30 e ainda não chegaram aos 40. Depois disso, já todos têm as suas opiniões mais do que consolidadas à custa de muita porrada no lombo, devaneios e desilusões. Em suma, já sabem o que comeram, se gostaram e se preferem bem ou mal passado. Estes já não têm dúvidas e deixam-nas com as mulheres. (Para os quarentões e cinquentões, as mulheres que partam a cabeça...)

Os vintões entradotes e os trintões é que andam a passar um mau bocado. As mulheres desorientaram-nos. Perderam o Norte que apontava sempre para a ponta, e perderam-se à procura dos muitos pontos cardeais femininos - aqueles em que as próprias mulheres de vintes e trintas também se dispersaram.

A diversidade deu cabo da dicotomia Romeu/Julieta... Os papéis confundiram-se e se não se confundiram arranja-se maneira de confundir para não se ficar atrás. Atrás de quem? Ninguém sabe.

O cinema tanto mostra o ideal "príncipe à procura de donzela", como o da nova "gaja a dar conta da cabeça ao gajo armado em príncipe". A literatura então é dos mais promíscuo que existe, lê-se uma Marguerite Duras e a seguir uma Laura Esquível (diferentes até à medula) e fica-se a pensar que o coração de cada um é um puzzle que Deus criou e guardou a última peça para Ele. Lê-se um dos sonetos do Vinicius e achamos que quem escreve assim viveu demasiadas vidas para quem vai a meio de uma...

A geração dos principiantes adultos já perdeu as ilusões de adolescente, mas não alcançou a maturidade e o cinismo da geração que se segue aos 40. E quando as duas se cruzam... Há mortos e feridos. Geralmente, os mais velhos assistem.

Por isso voltamos aos desgraçados de 20/30 que estão sempre a perder. Sempre que insistem em fazer contas complicadíssimas ao que o outro vai achar, pensar, reagir. Sempre que perdem a espontaneidade e se aventuram com as armas dos outros. Sempre que têm medo de uma mulher que se chega poderosa, ou de um homem que afinal não é (porque já não são todos) tão à frente como se imaginava. Sempre que desconfiam de uma mulher tímida e recatada, e de um homem que, surpresa!, afinal até se atira de cabeça (porque ainda os há assim).

Amantes do amor, andam todos a desconfiar da própria sombra, a perseguir a chama da paixão, sem perceber que na azáfama com tanto arfar ainda a apagam sem nunca a ter visto. Pior ainda, a perseguir a chama da maneira que acham que os outros a conseguiram incendiar...

Na tal bússula que já não indica apenas o Norte e o Sul, estão todas as vias abertas. Azimutes para todos os lados. As minhas amigas têm ambas razão. Eu bem lhes disse.

Agora, porque eu não sou tão simples como aparentemente eu quis fazer parecer, algumas inevitáveis chaves do meu código:

- Jamais façam bluff

- Se (só para os mais calejados) fizerem bluff saibam à partida as consequências

- Se conseguirem prolongar o efeito da química e da paixão, prolonguem. Mas só se vos der prazer e não vos causar ansiedade

- Cada homem e cada mulher merecem tratamentos diferentes. Não enfiem tudo no mesmo azimute.

- Leiam o "Um Amor Feliz" de David Mourão Ferreira

- Lembrem-se "São demais os perigos desta vida para quem tem paixão..."

... E... Sim, é verdade. Eu prefiro a química tântrica.

Muito azar no jogo meus amigos.

2 Comments:

Blogger clark59 said...

Olhe lá (corrija-me se eu estiver enganado) essa história do tântrico não é aquela coisa em que a gente fica 'agarrado' umas horas a fio até ter um orgasmo? Qual é a piada?

1:02 da manhã  
Blogger AS said...

Não sou especialista... Mas acho que não é bem assim. A piada do tântrico, no caso deste post, aplica-se à reacção química. Apenas. É o que vem antes de ficar 'agarrado'. ;)

2:29 da tarde  

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