13.2.05

A Irmã Lúcia, a religião e eu

A Irmã Lúcia morreu. Quando me falaram disso hoje ao almoço, mais concretamente o tradicional repasto familiar de Domingo, a minha imediata reacção(parva) foi: "Óptimo, agora já pode ir ter com a Nossa Senhora de Fátima". A minha mãe fingiu que não ouviu, o meu marido também para não estragar a bela carne e ofender a sogra, à minha irmã deu-lhe vontade de rir. A coisa ficou por ali.

Sou católica de formação, mas actualmente considero-me "apenas" cristã. Quer isto dizer que embora a minha cédula, carimbada até ao Crisma, com mais uns sacramentos pelo caminho, seja católica, acabei por sucumbir às desilusões e incoerências em que fui tropeçando nesse mesmo caminho.

Continuo a entrar nas igrejas para rezar, continuo a dar por mim a rezar todos os dias, continuo a gostar do mais belo 'best off' do mundo - a Bíblia, e mais importante de tudo continuo a acreditar na mensagem de Cristo, na Santíssima Trindade, na Virgem Maria, na Ressurreição, e no maior mandamento: Ama o próximo como a ti mesmo.

Por isto tudo jamais poderia transferir a minha devoção para a religião Protestante, embora simpatize com ela. Não sou grande fã do culto dos santinhos, mas sempre representam o rosto humano do divino e fazem os seus adoradores felizes. Não concordo com a confissão, mas também acho os protestantes muito mais puritanos que os católicos (os pecados deles devem ser muito sem sal). Defendo o casamento dos padres, mas também não devem haver muitas mulheres com vontade de casar com um pastor.

Sendo assim, resolvi não me converter ao protestantismo, até porque, tal como a maioria das religiões, a igreja iniciada por Lutero leva tudo muito mais a sério. Só o catolicismo é que se dá ao luxo de ser cultura, as outras religiões exigem o cumprimento à séria, por parte dos seus seguidores, da doutrina.

Os católicos, por sua vez, são do mais liberal que há. Há praticantes, não praticantes (uma distinção um pouco cretina, diga-se de passagem), quem não se confesse desde a primeira comunhão, quem seja a favor da liberalização do aborto, quem se esteja perfeitamente a marimbar para os conselhos sobre anti-concepcionais do Papa... Ainda dizem que a Igreja Católica é retrógada? Não é não. É incoerente. Defende uma coisa e absolve os fiéis que fazem outra. E ai do padre que se recuse a celebrar um casamento de dois "semi-ateus-baptizados-e-que-querem-fazer-uma-festa-bonita-no-altar-como-nos-filmes-e-como-a-rapariga-sempre-sonhou", e ai do padre que se recuse a celebrar o baptizado da "criancinha-filha-de-pais-semi-ateus-que-só-irão-voltar-à-igreja-quando-os-filhos-casarem-e-quando-morrerem"... Ai dele.

Deixei-me disso. Deus sabe os nervos que já apanhei à conta das paróquias.

Deixei-me de incoerências, em suma.

Que porra. Se eu até acredito, quase desde que me conheço, na reencarnação! Se eu estou contra a confissão, a favor da liberalização do aborto, defendo a pílula, considero o divórcio um sacramento civil abençoado. E ainda, atribuo à igreja católica uma quota parte significativa da responsabilidade pelo aumento do número de infectados pela Sida e pelo estado semi-tribal em que ainda se encontra a condição feminina. Entre outras coisas, que com a idade fui vendo que não coincidiam muito bem com a catequese.

É neste estado de desvinculação, mais institucional que espiritual, que me encontro e que gerou a minha reacção (parva) à morte da Irmã Lúcia. No entanto, sempre tive, mesmo enquanto católica bem aplicada, uma relação muito distante com Fátima, considerando-a uma religião à parte. Não sei se acredito. Sei que nunca desejei acreditar, como se nunca me tivesse feito falta.

E o que é a religião afinal? O desejo de fé, antes da própria fé.

A minha tirada sobre a Irmã Lúcia foi desrespeitosa. O contrário daquilo que sempre nutri pelo culto de Fátima, apesar da minha desconfiança. Porque se em alguma coisa posso e devo acreditar é na fé das pessoas que para lá caminham todo o ano.

2 Comments:

Blogger Marion said...

o que me impressiona em fátima é de facto o fenómeno da fé nas pessoas que lá vão ... confesso que em minhe casa a reacção do meu marido foi parecida com a tua: afinal ela não andava há décadas a querer ir ter com os irmãos? eu ri-me ...

9:11 da manhã  
Blogger g. said...

aqui está um pensamento sobre religião com pés e cabeça, parabéns pelas ideias muito arrumadas, eu cada vez mais gosto de andar nestes caminhos de santiago.

risos... depois desta 'confissão' tás perdoada ;o)

6:23 da manhã  

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