17.2.06

estrangeiros

Conheci há tempos um tipo francês, fotógrafo de profissão, que decidiu viver em Portugal, e ao fim de uns anos ainda não se arrependeu. Perguntei-lhe, na ocasião, abismada, porquê?! A minha pergunta caiu-lhe mal e desconfio que ficou logo a olhar-me de atravessado. Porquê?!!! Respondeu. Você já viveu no estrangeiro? Não, infelizmente. Retorqui só para provocar. Seguiu-se a habitual ladainha dos estranjas sobre Portugal, o sol, o clima, blá, blá, e não damos valor ao que temos, blá, blá, blá, e que temos Paz, bléu, bléu... Ainda esperei que ele dissesse e as mulheres portuguesas são muito bonitas, sempre tinha safado a conversa, mas não. Entre um canapé e um tónico, lá o deixei a remoer sobre os benefícios de viver em Portugal. O francês irritou-me, portanto.

Ele era meio tonto, mas quando começo a ouvir-me e a ouvir tanta gente à minha volta com vontade de emigrar, desiludidos e enfadados que estamos com o país, lembro-me dele. Ele lá terá as suas razões, que são tão legítimas como as nossas, os que estamos com um olho na fronteira. A cada país correspondem, medidas singularmente pelos seus habitantes, as alegrias e as tristezas, as obsessões e as desilusões, que de fora, ao olho do estrangeiro, são invisíveis e imensuráveis. Somos todos estrangeiros. Essa é a nossa condição, feliz mas, e talvez por isso, ignorante em casa alheia.

Ocorre-me agora frequentemente, a par de ir viver para Barcelona, Madrid ou Nova Iorque, outro pensamento que começa a ser grude: ganhar vontade de ir para fora cá dentro. O slogan é conhecido e não é, neste caso, um elogio ao turismo de habitação e às quintarolas românticas que povoam o nosso berço... É um grito de liberdade. Acredito que as fronteiras que criamos interiormente são mais limitadoras que as fronteiras geo-políticas. A vontade de sair do país não passa muitas vezes de uma vontade de sair de nós mesmos, quebrar barreiras, cruzar avenidas interiores ainda por inaugurar.

Jamais serei feliz em Barcelona ou em Nova Iorque se continuar cá dentro, sem ter ousado ir para fora. Quando for, não será para fugir (e se tenho vontade!), será para me expandir. Aí sim, colocarei a bandeira verde e rubra em terra alheia, sem vergonha nem raiva, porque das misérias deste país só eu e todos os portugueses sabemos. Os estrangeiros que continuem na ignorância.

9 Comments:

Anonymous d said...

...

9:57 da tarde  
Blogger Descamisado said...

E quando isso acontecer serás bem vinda à comunidade dos que, estando cá "fora" fazem tudo para elevarem ainda mais alto o nosso cantinho. Os "estranjas" da minha boca nunca ouviram um palavra negativa. E ás vezes dá cá aquela vontade... Bem vinda ao clube [quando vieres, claro]. bj

10:59 da tarde  
Blogger Edu. said...

Bem sei o que isso.

4:34 da manhã  
Blogger Sony Hari said...

Acho que não vale a pena encontrar soluções para a nossa insatisfação em espaços físicos diferentes sem primeiro diagnosticarmos se o problema (se é que é um problema??) é de alma, coração, trabalho, família, país, ou tudo junto.

12:09 da tarde  
Blogger Lua said...

Tiraste-me as palavras do pensamento sony hary. Concordo perfeitamente com o teu comentário, embora por vezes seja mais fácil e menos penoso passar à frente o diagnóstico!

2:40 da tarde  
Blogger Zecatelhado said...

É um assunto pertinente que levaria horas numa agradável cavaqueira.
Uma boa semana para ti

Um @bração do
Zecatelhado

9:51 da tarde  
Blogger Pimenta said...

Tudo o que esse tal amigo francês te disse é realmente verdade. Já vivi 5 longos anos fora do meu país e apercebi-me, (com meros 11 anos) que temos um país exelente e bonito. Não falo do clima, visto ter vivido num que achei melhor, mas toda a beleza natural e toda a sociedade que temos (que, acredita, sou uma das maiores críticas) já ter incorporado tantos conceitos que em partes do mundo não fazem seuqer sentido.
No entanto, ao dizer isto, não digo que estejamos de certa forma a regredir.
E agora, depois de ter voltado já tenho coragem para dizer que adoro o meu país e, que me aptece voltar outra vez para outro qualquer sítio, mas sempre para voltar, porque secalhar (apesar de na altura não ter gostado) foi uma escapatoria com a qual aprendi a dar valor ao que emos ou não.

10:11 da tarde  
Blogger Tatenen said...

Não deixo de concordar contigo. Neste preciso momento encontro-me também fora de Portugal por algumas das razões que enumeraste. Tenho por hábito dizer aos "estranjas :)" que Portugal é realmente um país fantástico para se viver - se não fores Português. Não é completamente verdade, no entanto. Mesmo nós podemos aproveitar o "cantinho à beira mar plantado", mas essa tal barreira psicológica é a provável causa desse nosso instinto migratório. Quando recebo amigos estrangeiros em Portugal tudo muda. Olho para as coisas como se não fosse dali, e acabo por me redescobrir. É realmente estranho. Penso que faz parte da nossa maneira de ser. É isto que nos caracteriza. O Português farta-se de dizer mal "cá dentro", mas quando vai lá "para fora" só elogia :)
Tenho, no entanto, esperança, que isto dê a volta e que daqui a 500 anos volte a ficar como era há 500 anos atrás :). E que não venham perguntar se a língua que se fala em Portugal é Espanhol...

12:40 da manhã  
Blogger Roxanne said...

O lugar a que sentimos pertencer nem sempre é o mesmo onde nascemos ou crescemos, cabe-nos a tarefa de procurá-lo com o coração e com muita coragem, mas uma vez encontrado sentimo-nos como quem chega a casa depois de uma longa ausência. A próxima vez que encontrares um estrangeiro que decidiu viver em Portugal (ou a mim) não perguntes porquê, não existe razão nessas escolhas, felicita-o.

8:12 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home